Quando transferida à pequenez de
versos,
à simplicidade de rimas,
deixa de ser concreto, cimento, rua, cidade;
vira palco de velhas histórias
que reavivam a tez de noites cálidas e cristalinas
Conforme os olhos se acostumam à luz
e, de tão opacas, as curvas borram, contorcem e fingem,
deixa ela de ser presente, passado, futurismo,
afunda a si e às suas próprias memórias
num quase-tempo de espaços vagos que, aqui, colidem,
vagos e, por pouco, aparentes.
'' Da baixa '' escrito em quinta 16 outubro 2008 02:35
Cálice otário escrito em quinta 16 outubro 2008 02:31
Cálice otário, pinga essa seiva:
essa rima sem gosto,
essa pinga sem efeito;
Pinga sobre teus fiéis o sangue imundo e
espesso
que flui no chão banhado a ouro
de templos rebocados em fé e gesso;
Beija as mãos calejadas de um demônio,
como beija os lábios do anjo caído que encarnas:
reverte essa tua renda suja e sacra
a surtos selvagens e orgias comungadas:
À santidade de tantas putas inocentes!
Cálice otário, pinga essa seiva:
essa rima sem gosto,
essa pinga sem efeito;
Que queimem na fogueira esses teus livros
com mentiras sedutoras de um paraíso desconstruído
chega de promessas infundadas,
almas atordoadas, obras inacabadas e santos pervetidos;
Onde tua hóstia sagrada promete e não cumpre,
e atola o mundo de loucos enrustidos,
tuas bordas cospem lágrimas, cálice:
Que se encham tuas ancas das moedas crentes dos que te
seguem,
de mãos juntas, entoando ladainhas que teatralizam a farsa
nessa via crucis diária, na autoflagelação que o torpor
salva:
O sangue é um troféu vívido
que a mostra tua humanidade enquanto fase larvária!
É, é mesmo um longo caminho, cálice
e, enquanto joelhos dilacerados se protegem mais tarde no vinho que
guardas,
embebido na tua baba
e bebido por teu Deus,
estaremos nós, homens comuns, aqui, servindo a ti e por ti
sofrendo,
por algo que, no fundo, nos convence,
mas que não existe, não subsiste e que jamais nos pertenceu:
Cálice otário, pinga essa lástima:
essa lágrima amarga,
essa angústia eternamente incrustada em nosso peito.
Saltos excedentes da cabeça. escrito em quinta 16 outubro 2008 02:27
Ele tenta centrar a cabeça,
sei lá - dar as voltas por aí que sempre soube dar:
descansar, quem sabe, às vezes,
faz (ou fez) sentido: dormir, nada-fazer,
sorrir, pensar;
Mas quem dera bastasse isso;
a voz que fala, em tom omisso,
que está na hora de acordar,
logo lhe vem à mente:
passa o sono, acorda!,
já foi-se o tempo de deitar;
Ele escrevia romances,
sem sentir medo, sem vê-los no espelho,
sem viver nenhum,
só lhe bastava ver tudo aquilo passar;
Era tal qual filme escrito,
verso e rima pobre, canção sublime
do dia-a-dia que doía não poder passar.
A vida era tão diferente:
ele tentava esquecer dos problemas,
dos contratempos, das asneiras cotidianas
- seu mundo não era das coisas mundanas... -,
mas há de se convir, é preciso viver aos poucos,
O há-de-vir nos é, sempre, pequeno,
é promessa e veneno
que envenena ao longo dos anos,
que nos faz menos loucos;
Bem que ele tenta virar a mesa,
jogar tudo pro alto e apostar errado
é só arriscar - fazer as besteiras, dar o que falar;
mas os tempos são outros, agora é certo,
está centrado, estático, correto,
Tão amarrado que parece homem feito,
tomou jeito,
e, agora, fica velho;
Quem dera estivesse satisfeito,
no peito, sabe que é tudo mentira,
quase-vida sem cores, amores,
romances e versos.
(RE)ciclo escrito em quarta 23 abril 2008 16:12
Há quem diga que,
pequenos, já o somos demais
E simples, retilíneos, que o sejamos nas entrelinhas,
mesmo que complexos nas mais velhas ladainhas
de contar nos dedos pequenos feitos e grandes
projeções
(como se fossem - quem nos dera! - críticas,
objeções);
Mediocridade, todos os sentem, mesmo que em acessos
pífios
cerrados em punhos cansados, machucados de tanta
insistência,
mesmo que estejam acostumados à mediocridade e à
indecência
de assobiar grandes desejos que não tomam parte em outras
vidas
(como se fossem - imagine - novas chances de entoar iguais
canções);
Há quem insista em fugir do lugar-comum
e encontrar outros termos sóbrios para os mesmos fins
mesmo que nada consiga transferir-lhes o sentido,
e seja melhor contar segredos fingidos, inexistentes, pobres,
enfim:
Sinceridade, todos a temem, mesmo que sob lençóis
translúcidos,
cansados em punhos cerrados, feridos pela incoerência
de, mesmo que capazes de abrir os olhos e expor-nos ao amor e
à condescendência
de atos fugidios, jamais farão, sequer,
existências,
do que um dia não passou de hipótese vaga,
quase-formas opacas de pouca tez e consistência.
Tanta gente passa por aqui - às vezes anda, corre, se
arrasta -,
mas nem por isso, de ver, crer e admirar por nós tornou-se
digna;
É a mesma coisa, ser tão normal afronta e
dói:
quem espera loucos e desvairados acotovelando-se nas esquinas
que o aguarde de olhos bem fechados e punhais nas mãos
feridas:
Há quem diga que gente normal, boa sensível,
já há demais,
e que não deixá-las em paz é mais é
mais que uma velha sina:
É preciso ser oco, podre por dentro e, por fora,
outro,
assim, há de ser pouco, muito pouco, e a elas, ser
muito.
Tudo para que haja preconceitos, comparações e
surdez,
tudo para que não haja mais vez de recriar e entoar os
velhos motes em novos versos e rimas.
Garota da Velha Cidade. escrito em quarta 09 abril 2008 23:52
Olha, que coisa mais linda
Doze anos na cara
Cheirando cola na esquina, bebendo cachaça
e a gente que passa desvia o olhar...
Olha que expressão cansada,
Que ar decadente
que roupas rasgadas,
que lar delinquente, que a vida reserva
pra essa moça sem par...
Ah, porque somos mesquinhos,
ah... e a beleza resiste
Mas, por quanto tempo já existe...
Essa gente tão pobre e sofrida,
nos cartões postais tão escondida?
Ah, se ela soubesse que a vida consome
o que resta de humano em todos os homens
e o que resta pra si é viver sem paixão...
Olha que coisa mais linda, ela não é
exceção
Desça a Paulista,
a Praça da Sé
E veja outras mocinhas fingindo passar...
Ah, se as calçadas e as ruas de pedra pudessem falar,
Teriam a vida inteira pra gemer sem calar
da dor dessa menina,
que lá repousa e trabalha sozinha,
e a gente, que só passa, desvia o olhar...


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